Encontros: Prt. III

large

Lucinda voltou a encara-lo por um momento e uma pequena sugestão do que devia ser um sorriso elevou o defeito no lábio do garoto, ela voltou a lançar farpas com o olhar, sentiu que ele zombava dela de alguma maneira como fizera até agora. E mesmo contra a vontade, se deixou ser levada até o carro estava parado. Luce não havia percebido a pequena multidão que se formara ao redor do quase acidente que sofrera, mas não era para ela – uma quase vítima – a maioria tinha a atenção voltada para o Porsche Cayenne Tuning turbo completamente negro e vidro fumê parado perto do meio fio. O menino a acomodou no banco do carona prendendo-a com o cinto o rosto ficando a poucos centímetros do dela, Luce prendeu a respiração, e depois foi acomodar-se no banco atrás do volante. Lucinda se concentrou por um longo minuto no tornozelo que já não doía ou incomodava como antes, sussurrou o endereço, não ficava a menos de quatro quarteirões da alameda. A personificação de seu desenho dirigiu em silêncio por todo o caminho, e ela não se atreveu a abrir a boca. De algum modo ela sabia que ele pensava, os olhos escurecendo, ficando como uma noite de tempestade que se aproxima com alguma preocupação.
Lucinda sentiu-se mal com o silêncio que dominava o pequeno interior do carro. Mas ela também pensava: Com era possível ser ele o menino em seu bloco se – até três minutos atrás ela se quer o conhecia? Se quer em sonho ela chegara a vê-lo, mas o rosto dele estava lá e ele, aqui. E as malditas sensações? Por que ela as sentira? Tudo bem que Luce sempre soube que, quando algo de muito ruim iria acontecer ela meio que era impelida a estar no lugar, mas ela nunca pressentira um acidente para si mesma, e agora, isso. A menina sentiu que mente dela iria explodir e um buraco negro se formou em sua barriga.
– Você está bem? – ela o ouviu perguntar a voz grave, preguiçosa e sexy quebrando o silêncio por cima do ronco leve do motor do carro, Luce levantou os olhos, o menino olhava fixamente a estrada apesar de ter falado com ela.
– Estou. – a voz dela saiu em um fio. O carro parou.
– É essa a sua casa?
– Sim, obrigada. – disse ela olhando pelo vidro dele a faixada da casa. Finalmente o menino a olhou, o chumbo dos olhos dele derretendo.

Anúncios

Encontros : Prt. II

large (1)

– Deve estar contundido. – disse o menino com a voz grave, sexy e preguiçosa e gélida ao mesmo tempo, mas tinha algo a mais em seu tom de voz, algo que pareceu ser mais como preocupação.
– Estou bem! – retrucou tentando se levantar, mais o tornozelo reclamou com uma pontada de dor e um gemido de dor lhe escapou pelos dentes. – Ah!
– Você realmente precisa ir a um médico. – retrucou o menino de volta, e Luce sentiu que de alguma maneira ele sabia que ela não iria nem se a lesão fosse uma fratura exposta.
– Não preciso, não. – disse já irritada com a personificação do desenho. – E quem é você afinal?
– Isso… tem importância? – perguntou ele franzindo o cenho levemente.
– Sim. – Luce respondeu irritada e com um tom de voz quase cortante olhando-o nos olhos. – Se eu decidir te processar.
– Ei! – o menino ergueu as mãos, como se quisesse se defender do seu tom de voz. – Foi você quem apareceu do nada na frente do meu carro. E sim, você precisa ver seu tornozelo.
– Do nada? Você quem não olha por onde anda! – Luce acusou. O menino franziu o cenho e ergueu uma sobrancelha negra, olhando os fones de ouvidos pendurados ao redor do pescoço da menina.
– Eu buzinei. – disse ele como quem pede desculpas. – Você precisa ir a um médico.
– Não, eu não preciso. – reclamou tentando novamente levantar, o tornozelo reclamou com mais força com a pontada de dor correndo toda a perna pelo esforço, fazendo com que ela voltasse a cair no chão com um gemido de dor escapando pela boca contra a sua vontade. Ele mordeu o canto do lábio tentando não rir do esforço mal sucedido, Luce lhe deu uma olhar frio e ele franziu os lábios, fazendo a mente da menina girar mais uma vez. Estava lá. No canto do lábio superior, uma pequena cicatriz, era quase imperceptível, mais estava lá. Uma pequenina cicatriz de algum soco que ele ganhado em algum tempo atrás, há muito tempo atrás. Se ainda lhe restava alguma duvida, ela desaparecera , era o mesmo rosto que estava em seu bloco de desenhos.
“Mas como Lucinda?!” – o pensamento gritou, nem mesmo ela sabia.
– Respire. – a ordem soou um tom mais baixo e mais perto do que deveria estar. Não havia percebido que prendia a respiração até que ele a mandasse respirar. O ar entrou dificultoso em seus pulmões. – Venha, vou leva-la a um hospital.
– Não! – sua voz não soou como ela queria, lhe pareceu histérica ou quase gritada. Não cogitara a hipótese de ser levada ao hospital, seus olhos arregalaram por um segundo depois ele franziu a testa. – Não. Não é necessário, eu já disse.
– Vai me processar se eu não leva-la? – Lucinda sentiu que ele zombava dela, e o fuzilou com os olhos. Ele lhe lançou um olhar cinza de desculpas. – Deixe-me leva-la em casa ao menos.

Encontros: Prt. I

tumblr_lg3urbdEAq1qe0w08o1_500

Katharine tinha ido embora depois de uma mensagem aparentemente urgente de Jake, e Luce se viu sozinha na cozinha de novo. Não totalmente, afinal o rosto em seu bloco de desenho a encarava de maneira sugestiva e inquisitória, com a cicatriz a incomodando, não só ela, todo o desenho a incomodava de maneira estranha, fazendo o seu estômago girar. Não queria pensar sobre isso, ao menos não agora, pensar acabaria enlouquecendo-a aos poucos.
Não podia ficar em casa parada, a ideia de ficar só a assombrava. Subiu as escadas da cozinha que davam direto no corredor dos quartos e seguiu para o dela, vestiu-se com uma camiseta, uma calça moletom cinza, calçou um tênis de corrida. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo que ia até a sua cintura e desceu. Ela precisava de um pouco mais de endorfina correndo por suas veias, se ficasse parada iria acabar enlouquecendo. A playlist do Linkin Park tocava no ultimo volume nos fones de ouvido do Iphone quando chegou a alameda á dois quarteirões ao norte. Foi então que o sentiu voltar, a sensação de entorpecimento, a ânsia invadiu o seu estômago dolorosamente como se tivesse levado um soco na barriga, fazendo-a curvar-se sobre os seus joelhos procurando apoio. Tudo ao seu redor girou, a respiração ficou presa em sua garganta. Lucinda mal havia percebido que tinha parado no meio da rua e tampouco percebeu o carro que se aproximava rapidamente de onde estava. O calafrio subiu rastejando por sua espinha, paralisando seu corpo onde ela estava. Foi quando viu, entorpecida, o carro dar um cavalo de pau que deixou marcas no asfalto e parar de modo brusco do lado do meio fio. Uma dor subiu por sua perna e quando deu por si estava inalando rápido demais a poeira do chão colado no seu rosto.
A porta do motorista se abriu, e seu dono voou para o lado da menina tentando ajuda-la a se sentar, a respiração faltando em seus pulmões enquanto ela o olhava. Pareceu que o seu desenho havia ganhado vida e tomado forma bem na sua frente, com a mesma expressão fria e olhar cinza do grafite do lápis na folha em branco do seu bloco. Era ele, a menina não sabia como isso poderia ser no mínimo possível mais era ele, o mesmo rosto do desenho. Os cabelos negros quase azulados faziam contraste com a pele branca, os olhos de um cinza que a se fez lembrar o céu acima do mar quando se previa tempestade de tão cinzas que eram. Sua expressão era fria, seus olhos gélidos sobre os dela e mesmo assim, de uma maneira que chacoalhou qualquer coisa em seu estomago, Lucinda viu um tipo de surpresa neles. Como se fosse impossível o fato dela estar ali, provavelmente do mesmo modo como ela o devia estar olhando agora. O menino deslizou a mão até o tornozelo esquerdo dela e apertou com força, Luce o puxou quando a dor que galgou pela perna quase imediatamente enquanto ele unia as sobrancelhas negras.

Sonhos: Parte Final

– Como ele ousa fazer isso com você? – ela perguntou, agora com uma espécie de revolta.
– Ele é um idiota. – disse a menina com um pouco de presunção
– Exato. – disse ela catando o bloco de desenhos do canto da mesa e começando a folhear as páginas, analisando os desenhos que já tinham sido feito. Um pássaro, um retrato do rosto de Melina, da vista do mar do precipício de Santa Mônica, da Igreja em destroços, uma pena negra, um retrato do próprio rosto da loura inquisitória até que ela chegou ao retrato do menino de olhar cinza grafite.
– Você é muito boa. – disse ela meio absorta, Luce não queria prestar atenção no último desenho, Cat o olhou e arregalou os olhos por um milésimo de segundo e depois piscou, como se conhecesse o rosto que havia sido desenhado, ou talvez Luce tenha imaginado isso. – Quem é esse? – perguntou tentando disfarçar, ou mais uma vez Luce poderia ter imaginado o tom de voz.
– Acreditaria se eu te dissesse que não faço à mínima? – disse encolhendo-se na cadeira.
– É perfeito, Luce. Muito detalhado.
“Detalhado?!” – a palavra se repetiu na cabeça da menina quando ela tomou o bloco das mãos da loura e analisou o desenho do rosto que ela havia visto em sua mente do nada, procurando por qualquer coisa que não tinha visto antes. Além do fato de que ele parecia estar olhando diretamente para ela, ele tinha um risco muito mais forte que a pele no canto esquerdo do lábio superior do desenho, como uma cicatriz.
– Eles são lindos, Luce.
– Obrigada. – murmurou a menina ainda meio intrigada e visivelmente incomodada com a cicatriz que havia surgido quase que do nada no lábio superior esquerdo do seu desenho. Houve quase que uma necessidade de mudar de assunto. – E quanto a você e o Jake? Como foi o baile?
Foi uma das poucas vezes em que Luce presenciou Cat ficar vermelha. Isso era novidade afinal. Katharine era uma loura arrogante e completamente irônica quando queria, nunca com Luce é claro, e parecia realmente gostar do Jacob. A menina sempre soube disso antes mesmo dela lhe falar sobre a preferencia um tanto rara – ela sempre sabia disso também e se assustava quando os casais que via como sendo “feitos um para o outro” dando certo. E era engraçado – ou no mínimo estranho – porque Jacob era como um antidoto a arrogância da menina loura, e Lucinda sempre soube que ele sempre gostara dela desde que pôs os pés no Eligius. Depois que o rubor da loura invasiva passou, ela finalmente falou sem jeito:
– Ah, foi bom. – Cat realmente parecia estar feliz.
– E…? Conta isso direito, Cat! – exigiu Luce.
– Ele… me pediu… em namoro.
“Oh bem! Ao menos uma boa notícia.” – pensou, depois de tudo o que aconteceu ontem á noite.
– E você aceitou, não foi?
– Sim. – a loirinha disse baixinho. – Mas e agora e então, Lucinda? Você vai voltar ao Eligius depois de seu histórico de bailes?
Luce prendeu o interior da boca entre os dentes. “Era necessário lembrar, Katharine?”
– Hm, é tenho biologia e teste de vôlei. Então…
– Isso é um sim então?
– É isso é um sim.

Sonhos: Parte VII

tumblr_lvq1dmfUMS1r7a6roo1_500_large

Houve mais um toque da campainha e depois duas batidas impacientes na porta da frente até que Luce criou coragem e se levantou para abrir a porta para a loura irritante e impaciente que lhe lançou um olhar feroz por sua demora.
– O que? – perguntou ela vendo Cat atravessar a sala em direção à cozinha, lançando a bolsa sobre o balcão de mármore negro.
– Já não era sem tempo, Cavendish. – Luce a ouviu gritar do outro lado da cozinha enquanto fechava a porta e voltava ao balcão e a sua cadeira. – Que diabos você estava fazendo?
– Hm, lendo. – perguntou retoricamente levantando seu exemplar surrado de Romeu e Julieta para ela enquanto a loura procurava algo de comestível na geladeira. – Vem cá você sempre é assim? – Luce perguntou erguendo uma sobrancelha para ela com um copo de suco de laranja na mão.
– Assim como? – devolveu a loura com um olhar confuso.
– Invasiva. – respondeu, o olhar confuso de Cat passou para o ameaçador em segundos.
– Agradeça por isso Cavendish, caso contrário nunca me teria como um de seus poucos amigos. – Luce mordeu o canto interno da boca e voltou um terço da sua atenção ao livro.
– Sim, agradeço. Poupa-me de muitas explicações. – Pelo canto do olho Lucinda a observou sentando-se no banco vazio do lado oposto ao balcão, ela lhe lançou um olhar verde agudo.
– Por falar em explicações, você me deve algumas. – Disse ela cruzando as pernas. – Começa logo!
– Com o que?
– Como foi no baile? – Luce soltou um suspiro. Não era necessário contar que ela fora deixada de lado em um dos cantos do ginásio porque Liam – o zagueiro do time de futebol e seu acompanhante – decidira que iria voltar com Lauren, sua não atual ex e a menina mais insuportável que Luce chegara a conhecer, havia algo nela que lhe fazia doer a cabeça. Assim como era – decididamente – não necessário contar sobre o quase acidente fatal que pressentira poucos minutos antes de acontecer. Essa parte pelo menos ela poderia omitir, ela deveria.
– Não foi lá muito bom. – disse com um suspiro.
– Como assim “não foi lá muito bom”? – Cat ergueu uma sobrancelha dourada para que Luce desembuchasse tudo com os mínimos detalhes do que acontecera na mal fadada noite. Até parece que ela iria contar.
– Do tipo: crise de ciúmes da… hãn ex “ex” e reconciliação no baile, muito romântico por sinal. E do tipo também, olha, vindo sozinha e a pé para casa, as 1hrs45min da madrugada com um salto de 15 cm que enfiaram nos meus pés contra a minha vontade. – Luce lançou metade do que acontecera no balcão de mármore negro com uma certa dose de sarcasmo no meio, enquanto Cat arregalava os olhos verdes e prendia-se para não rir ou simplesmente ficar com raiva.
– Mas que… – ela não terminou a frase do xingamento.
– Isso ai mesmo. – concordou Luce respondendo ao xingamento que Cat deixou se perder em sua cabeça.

Sonhos: Parte VI

97d8964eee5111e182c522000a1cbab2_7

Luce tentou em vão desembaraçar os cabelos, mas eles não cederam facilmente e ela desistiu prendendo-os em um coque solto, vestiu-se, catou o vestido de renda que ainda jazia perfeitamente no chão perto da porta do banheiro e desceu para a cozinha, jogando o vestido no cesto de roupas na área de serviços. Charlie não estava em casa, antes mesmo de descer ela havia procurado sua presença pela casa e não a encontrara em canto nenhum. Tinha isso também, Lucinda sempre sabia quando estava ou não sozinha, sentia presenças das pessoas, quanto mais familiarizada com a pessoa mais fácil era de senti-la. Melina sempre a acusou de roubar nos jogos de pique-esconde, um sorriso brotou no rosto de Luce. Caminhou até a geladeira e havia um aviso do Charlie colado com um imã, ele fora chamado de imediato e com urgência no Hospital Geral San Vincent Medley e não voltaria para o jantar. Luce havia terminado de comer um sanduíche e quando decidiu ocupar a mente – e corpo – pondo ordem na casa, decidindo começar pela cozinha. Iria enlouquecer se ficasse tentando raciocinar sobre os sonhos da noite e principalmente sobre o misterioso desenho que tomava conta de uma das folhas do seu bloco de desenho.
A máquina secadora trabalhava ruidosamente quando ela terminou de passar pano nos móveis da sala, demorou a manhã inteira e parte da tarde antes que terminasse totalmente a faxina da casa Willians. Voltou ao quarto e catou o bloco de desenho do chão e o exemplar de Romeu e Julieta da estante de livros e desceu para a cozinha novamente, lançando os pertences sobre o balcão de mármore negro. O bloco ainda estava aberto na página exata onde o desenho do garoto a encarava com ar inquisidor, e o tão conhecido arrepio voltou a escalar lentamente a sua espinha junto com a sensação de que ela conhecia de algum lugar e tempo distantes. Voltou a lançar o bloco de lado e pegou a famosa tragédia do Bardo, já estava no último ato quando a campainha soou impaciente e menos de um segundo depois o celular vibrou com uma nova mensagem de texto.

“Abre logo essa porta, Cavendish!”
Ass.: Katharine.

Uma autoritária como sempre, pensou Luce antes de ir abrir a porta para a loura impaciente. Desde que ela se mudou para a cidade com o pai e a irmã e ela para o Eligius uma das poucas pessoas que se aproximara dela fora Katharine Biel Belly, Cat como ela exigira ser chamada, e depois da morte de Melina, as pessoas que já não se aproximavam da novata estranha, ficou muito pior.

Sonhos: Parte V

tumblr_mcarv6cbbu1qhdkxco1_500_large

Lucinda acabou voltando para o quarto, jogou o caderno aberto na página do desenho no chão do lado da cama e depois lançou-se de bruços na cama, a lentidão de um sonho rastejando por ela. Desta vez o negror do sonho a levou a parte mais alta do conjunto de precipícios Santa Mônica. Luce estava de pé na beira do penhasco, ao lado dos restos da Igreja que levava o mesmo nome do conjunto. A forma como ela estava agora pareceu que algo caíra do céu com um impacto forte o bastante para destruí-la, havia fogo em algumas partes. Um vestido branco que mais parecia marrom de tão encardido de terra que estava à bainha em trapos, cobria o seu corpo até as coxas, os cabelos chicoteavam o seu rosto com a força do vento, Lucinda olhou seus pés, ela estava descalça. Um raio cortou ruidosamente o céu dando o sinal de que uma tempestade se aproximava.
– Lincy? – a voz familiar de Melina chamou por seu apelido as suas costas. – Lincy é você mesmo? – voltou a perguntar com certa descrença. Luce se virou em direção a voz da irmã e a visão de Melina quase a fez recuar. Não parecia a mesma Mel que a menina conhecia, não parecia a irmã. Melina estava um vestido sujo de lama e com a bainha rasgada, seu cabelo que já fora muito maior que o da irmã estava cortado á altura das suas orelhas e espetado em todas as direções, seus olhos estavam gelados, as pupilas frias, mesmo com Lucinda vendo a emoção neles por te-la visto ali, não era os mesmos olhos verdes esmeraldas que ela conhecia. Estava suja de terra, e havia uma cicatriz recente em seu ombro esquerdo em forma de espiral, como um redemoinho. Melina correu em sua direção, abraçando-a apertado. A pele quente, fervente, como se tivesse ficado horas debaixo do sol, assustou Luce por um momento, mas retribuiu o abraço. – Salve-me. – Melina sussurrou no seu ouvido antes de sumir no vácuo da escuridão.
Mais uma vez Luce acordou com o suor colando a camiseta em suas costas. Voltou a olhar o marcador digital na mesinha de cabeceira, marcava 09hrs35min da manhã de domingo. A menina piscou com força para a luz que entrava pela janela, levantou e quase caiu de volta na cama com a tontura que tomou conta do seu corpo, as pernas pareceram gelatina. Respirou fundo duas vezes antes de conseguir caminhar até o banheiro e parar em frente ao espelho. Ela realmente parecia exausta, despiu-se da camiseta e entrou debaixo do chuveiro com a água fria escorrendo cabeça abaixo enquanto se lembrava do segundo sonho que a atormentara durante a madrugada. Lucinda saiu, parando de toalha em frente ao espelho que tomava conta da parede ao lado do guarda roupas, os cabelos negros escorrendo água, molhando o piso. O sonho servira para mostrá-la mais uma vez como ela diferente do restante da família, a única coisa que a aproximava fisicamente de Charlie era a cor dos olhos, escuros como xarope, ou como a irmã gostava de chamar: negros como noite sem luar ou estrelas. Enquanto Melina tinha a pele branca a de Luce era amorenada com uma palidez – estranha a todos nós e até mesmo ao pai – os cabelos de Mel eram louros na altura do seu bumbum e os da outra negros caindo perfeitamente até abaixo da cintura em ondas perfeitas.

Sonhos: Parte IV

550_telhado1

Lucinda voltou a olhar o relógio anacrônico com a luz vermelha piscando 04hrs45min. Nem se ela realmente quisesse voltaria a dormir depois daquela loucura, os sonhos e da conversa com o pai. As lembranças sujas com sangue e embaçadas com água e principalmente pela dor voltaram a correr pela mente absorta da menina, ela não estava louca como todos, até mesmo o pai, achavam que ela estava. Lucinda sabia o que ela havia visto, e ela viu o menino descer da moto e golpear o peito de sua irmã com uma adaga. Ela conseguiu ver o sorriso de prazer em seu rosto ao fazer isso, ela sabia porque ele a tocara antes de assassinar Melina. E Luce o culpava pela morte da irmã, por seus quase três meses de um coma que ela achou que não acordaria. Sacudiu a cabeça, não queria se lembrar, o estômago revirou confirmando isso. Catou um bloco de desenhos em uma das gavetas do criado-mudo, um lápis e destrancou a janela, subindo ao telhado. Ela escalou a trilha de trepadeiras que iam até o telhado e sentou-se olhando o céu começando a se pintar de laranja e rosado e dourado, Luce sorriu, abrindo os braços em direção ao sol que surgia com seus primeiros raios. Sempre fazia isso mesmo sem ter ideia do porque, simplesmente gostava de ver o sol do amanhecer ou sentar-se de madrugada pra ver a vastidão do céu acima dela, ela sentia como se olhá-lo renovasse todas as suas forças, fazia bem. Melina sempre lhe dizia que era por que Luce tinha uma ligação com a imensidão celeste, que ela pertencia a isso de alguma maneira, ate mesmo Luce achava que era loucura e ela sempre dava risada. O sol já estava quase por todo no céu, dispersando as nuvens pesadas da noite quando Luce começou a desenhar, um rosto não familiar começando a surgir na folha em branco. Ela acabou desenhando o rosto de um menino, um menino que a fez virar a cara para o seu olhar cor da ponta grafite do seu lápis de modo inquisitório. Lucinda não entendeu muito bem porque o havia desenhado se nem mesmo ela o conhecia, como ele viera parar em seu bloco de desenhos? Ela voltou a olhá-lo, a sensação de conhecer seu rosto rastejando pela sua mente como uma fumaça densa, como um nevoeiro da cor de seus olhos cinza. Ele a me olhava de volta, de uma maneira que embrulhou o seu estomago, revirando-o. Lucinda não fazia a mínima ideia de onde o conhecia, nem estava com ânimo de tentar lembrar.

Sonhos: Parte III

tumblr_lueyr26Biz1qfadkzo1_500

Luce acordou em seu quarto ainda escuro praticamente saltando sentanda na cama, uma gota fria de suor escorreu por suas costas enquanto ela procurava desesperadamente acalmar a respiração. Se passaram três minutos ates que percebesse a presença de Charlie aos pés da sua cama a olhando com uma expressão estranha. Um suspiro escapou por entre seus dentes, olhou o mostrador do relógio, marcava 04hrs00 min.
– Eu pensei que… essas crises… tivessem acabado. – ouviu Charlie comentar enquanto sentava na beira da cama. Outra gota de suor escorreu por sua nuca abaixo trazendo um arrepio leve junto.
– Eu também. – murmurou lutando contra as lágrimas que insistiam em vir mesmo contra a vontade. Charlie lhe lançou um olhar atento, Luce conhecia muito bem aquele olhar, era o mesmo que ele lhe dera quando aquilo tudo começou, era o mesmo que dera quando ele deu a notícia que Melina havia morrido no acidente quando ela acordara milagrosamente do coma se perguntando loucamente pela irmã e fora o mesmo que dera quando decidira que a empurraria de encontro aos consultórios de psiquiatras, psicólogos e consequentemente á remédios tarja preta contra delírios pós traumáticos.
– Lucinda… você não acha melhor que volte as consultas com a Dra. Sara? – Luce o olhou sentindo suas sobrancelhas se arquearem de surpresa. O não que ecoou na mente da menina foi mais alto que se ela realmente o houvesse gritado para ele. Consultas levavam a psicólogos que a levariam a remédios e tudo isso levaria a pensarem que ela era realmente louca ou algo muito parecido com isso. Além do mais Lucinda sabia exatamente o que a Doutora iria dizer: “Somente uma crise de perda recente, nada que não passe com um internamento ou boas doses de dopantes com a tarja preta de preferência. Aceita um café?” E ela quase sorriu com esse pensamento, depois que acordara do coma de dois meses ela praticamente vivera a base de dopantes contra alucinações pós-traumáticas por quase um ano, além disso sempre achou que a Dra. Sara só prescrevia tantos remédios aos seus paciente porque ela mesma não podia toma-los.
– Eu acho melhor você… – Charlie continuou com a voz baixa.
– Eu acho melhor não, não agora papai.
– Mas Luce é para o seu bem, querida. – Essa era a desculpa, sempre era para o seu próprio bem. Afinal uma lunática que acreditava que a irmã fora assassinada ao invés de ter morrido por conta de uma lesão no tórax que levava a um furo nos pulmões, só poderia ser mantida a base de calmantes.
– Pai?! – ela praticamente gritou, voltar ao hospital San Vincent não era uma opção. Luce não voltaria. – Se voltar a acontecer… voltamos a conversar sobre isso, o.k.? – Charlie franziu o cenho, depois lhe deu um olhar cansado, tanto quanto a própria Lucinda, Charlie sabia que ela não voltaria ás consultas, não depois de tudo que aconteceu para que ela “voltasse” ao normal depois que saiu de um. Depois de um minuto ele assentiu e saiu do quarto, Luce suspirou e colocou as palmas nas têmporas.

Sonhos: Parte II

tumblr_lpl7q1kpSY1qm6714o1_500

A casa ficava a três quarteirões e meio da escola, algumas milhas que ela decidira encarar a pé. Era uma bela casa, de madeira branca e meio avermelhada do lado da parede onde era a garagem, de modo retangular, o térreo foi transformado uma garagem por conta da mania que Melina tinha por carros esportes super velozes. A dor havia desaparecido completamente do estômago de Luce enquanto ela procurava as chaves dentro da bolsa de mão, abriu a porta torcendo pra que o pai já estivesse dormindo, ele nunca ficava acordado até tão tarde e já passava de uma hora da madrugada. Entrou, arrancando os sapatos que lhe dariam bolhas na manhã seguinte e caminhou para a sala. A tevê estava ligada no canal de esportes e Charlie cochilava no sofá. Luce não pôde deixar de sorrir com imagem dele visivelmente cansado depois de um provável plantão no hospital e ainda a esperando chegar depois do baile. Pegou o controle e desligou a televisão, já estava no segundo lance de escada quando a voz sonolenta dele chamou de volta.
– Luce?
– Oi papai.
– Como foi o baile, querida? – Várias repostas se passaram pela mente da menina, ela poderia dizer que fora abandonada pelo seu suposto acompanhante que resolvera de uma hora pra outra voltar com “ex” ex, que sentira um acidente de carro que deixou um belo de um corte no supercílio de um garoto bêbado e que foi meio que obrigada a vir para casa andando com um salto quinze três quarteirões ou mentir. Escolheu a segunda opção.
– Divertido, papai. – respondeu se perguntando se a voz não tremeu quando ela o disse. Mentir sobre o seu estado psicológico pra Charlie estava se tornando meio que frequente de uns tempos para cá. – Se não se importa eu vou dormir agora. Boa noite, Charlie.
– Boa noite, querida.
Subiu as escadas de dois em dois degraus, jogando a bolsa e os sapatos atrás da porta e o vestido que o pai comprou naquela tarde no chão de mármore branco e colocou o corpo debaixo d’água fria, esperando que ao menos ajudasse a levar junto com o suor a agonia que ainda restava no seu corpo. As ânsias e compulsões devido ao pressentimento de um acidente que nem fora tão grave assim já haviam deixado o seu corpo, mais não tinham levado o torpor que a fez vestir-se com uma camiseta larga e se lançar na cama sendo quase que imediatamente engolida pela escuridão de um sono pesado.
O sonho acabara levando-a ao local onde ocorrera o acidente que a levara a um coma de dois meses e meio que muitos, inclusive o pai achara que seria irreversível e que também causara a morte de sua filha, Melina, irmã adotiva de Luce. Era uma via próxima ao conjunto de precipícios Santa Mônica, Melina corria com o carro. Chovia. Lucinda olhou desesperada para o velocímetro, 100 km/h, a sensação de que estavam correndo de algum perigo assolou o seu estômago.
“- Diminui Melina! – Gritou por cima do ronco potente do motor da Mercedes. Melina olhou para ela com uma expressão estranha de pressa e terror, depois olhou o retrovisor e sacudiu a cabeça em negação e pisou mais fundo no acelerador. – Diminui a velocidade, Mel! Agora!
– Você não vê Lincy? – ela perguntara quase aos gritos com uma voz que beirava o choro. – Ele está atrás de nós, ele quer… – Ela deixou a voz se perder embargada pelas lágrimas de medo que teimavam em querer escorrer por seu rosto, e pisou mais forte no acelerador. Foi então que Luce sentiu a necessidade de olhar para trás e viu uma moto, uma moto potente e veloz vindo atrás do carro delas com os faróis acesos. O motociclista se vestia completamente de preto, com o capacete negro de viseira fumê, a moto era uma Harley Davidson, isso Luce conseguiu saber deduzir, e depois disso a menina só não conseguiu deduzir por que Melina estava fugindo dele. Ela pisou ainda mais no acelerador, o velocímetro subia á 110, 120, 130 Km/h e a chuva começou a bater mais forte no corpo do carro, um raio chegou a visão de Luce e caiu em uma árvore próxima a uma das curvas mais perigosas do conjunto e fez com que Melina perdesse o controle do carro capotando barranco abaixo. Luce sentiu a chuva em seu rosto, mesmo sabendo que ainda estava dentro do que restara do carro. Luce sentia dor, e havia sangue, muito sangue, embaçava a sua visão junto com a chuva. Mesmo assim ela conseguiu ver o menino se aproximar do corpo da irmã e golpear com uma adaga de lâmina curva o peito da garota. E a partir dai Luce só se lembra da dor, do sangue e de um brilho branco que tomara conta de sua visão, depois nada, só o negro denso”.