Sonhos: Parte V

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Lucinda acabou voltando para o quarto, jogou o caderno aberto na página do desenho no chão do lado da cama e depois lançou-se de bruços na cama, a lentidão de um sonho rastejando por ela. Desta vez o negror do sonho a levou a parte mais alta do conjunto de precipícios Santa Mônica. Luce estava de pé na beira do penhasco, ao lado dos restos da Igreja que levava o mesmo nome do conjunto. A forma como ela estava agora pareceu que algo caíra do céu com um impacto forte o bastante para destruí-la, havia fogo em algumas partes. Um vestido branco que mais parecia marrom de tão encardido de terra que estava à bainha em trapos, cobria o seu corpo até as coxas, os cabelos chicoteavam o seu rosto com a força do vento, Lucinda olhou seus pés, ela estava descalça. Um raio cortou ruidosamente o céu dando o sinal de que uma tempestade se aproximava.
– Lincy? – a voz familiar de Melina chamou por seu apelido as suas costas. – Lincy é você mesmo? – voltou a perguntar com certa descrença. Luce se virou em direção a voz da irmã e a visão de Melina quase a fez recuar. Não parecia a mesma Mel que a menina conhecia, não parecia a irmã. Melina estava um vestido sujo de lama e com a bainha rasgada, seu cabelo que já fora muito maior que o da irmã estava cortado á altura das suas orelhas e espetado em todas as direções, seus olhos estavam gelados, as pupilas frias, mesmo com Lucinda vendo a emoção neles por te-la visto ali, não era os mesmos olhos verdes esmeraldas que ela conhecia. Estava suja de terra, e havia uma cicatriz recente em seu ombro esquerdo em forma de espiral, como um redemoinho. Melina correu em sua direção, abraçando-a apertado. A pele quente, fervente, como se tivesse ficado horas debaixo do sol, assustou Luce por um momento, mas retribuiu o abraço. – Salve-me. – Melina sussurrou no seu ouvido antes de sumir no vácuo da escuridão.
Mais uma vez Luce acordou com o suor colando a camiseta em suas costas. Voltou a olhar o marcador digital na mesinha de cabeceira, marcava 09hrs35min da manhã de domingo. A menina piscou com força para a luz que entrava pela janela, levantou e quase caiu de volta na cama com a tontura que tomou conta do seu corpo, as pernas pareceram gelatina. Respirou fundo duas vezes antes de conseguir caminhar até o banheiro e parar em frente ao espelho. Ela realmente parecia exausta, despiu-se da camiseta e entrou debaixo do chuveiro com a água fria escorrendo cabeça abaixo enquanto se lembrava do segundo sonho que a atormentara durante a madrugada. Lucinda saiu, parando de toalha em frente ao espelho que tomava conta da parede ao lado do guarda roupas, os cabelos negros escorrendo água, molhando o piso. O sonho servira para mostrá-la mais uma vez como ela diferente do restante da família, a única coisa que a aproximava fisicamente de Charlie era a cor dos olhos, escuros como xarope, ou como a irmã gostava de chamar: negros como noite sem luar ou estrelas. Enquanto Melina tinha a pele branca a de Luce era amorenada com uma palidez – estranha a todos nós e até mesmo ao pai – os cabelos de Mel eram louros na altura do seu bumbum e os da outra negros caindo perfeitamente até abaixo da cintura em ondas perfeitas.

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