Sonhos: Parte II

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A casa ficava a três quarteirões e meio da escola, algumas milhas que ela decidira encarar a pé. Era uma bela casa, de madeira branca e meio avermelhada do lado da parede onde era a garagem, de modo retangular, o térreo foi transformado uma garagem por conta da mania que Melina tinha por carros esportes super velozes. A dor havia desaparecido completamente do estômago de Luce enquanto ela procurava as chaves dentro da bolsa de mão, abriu a porta torcendo pra que o pai já estivesse dormindo, ele nunca ficava acordado até tão tarde e já passava de uma hora da madrugada. Entrou, arrancando os sapatos que lhe dariam bolhas na manhã seguinte e caminhou para a sala. A tevê estava ligada no canal de esportes e Charlie cochilava no sofá. Luce não pôde deixar de sorrir com imagem dele visivelmente cansado depois de um provável plantão no hospital e ainda a esperando chegar depois do baile. Pegou o controle e desligou a televisão, já estava no segundo lance de escada quando a voz sonolenta dele chamou de volta.
– Luce?
– Oi papai.
– Como foi o baile, querida? – Várias repostas se passaram pela mente da menina, ela poderia dizer que fora abandonada pelo seu suposto acompanhante que resolvera de uma hora pra outra voltar com “ex” ex, que sentira um acidente de carro que deixou um belo de um corte no supercílio de um garoto bêbado e que foi meio que obrigada a vir para casa andando com um salto quinze três quarteirões ou mentir. Escolheu a segunda opção.
– Divertido, papai. – respondeu se perguntando se a voz não tremeu quando ela o disse. Mentir sobre o seu estado psicológico pra Charlie estava se tornando meio que frequente de uns tempos para cá. – Se não se importa eu vou dormir agora. Boa noite, Charlie.
– Boa noite, querida.
Subiu as escadas de dois em dois degraus, jogando a bolsa e os sapatos atrás da porta e o vestido que o pai comprou naquela tarde no chão de mármore branco e colocou o corpo debaixo d’água fria, esperando que ao menos ajudasse a levar junto com o suor a agonia que ainda restava no seu corpo. As ânsias e compulsões devido ao pressentimento de um acidente que nem fora tão grave assim já haviam deixado o seu corpo, mais não tinham levado o torpor que a fez vestir-se com uma camiseta larga e se lançar na cama sendo quase que imediatamente engolida pela escuridão de um sono pesado.
O sonho acabara levando-a ao local onde ocorrera o acidente que a levara a um coma de dois meses e meio que muitos, inclusive o pai achara que seria irreversível e que também causara a morte de sua filha, Melina, irmã adotiva de Luce. Era uma via próxima ao conjunto de precipícios Santa Mônica, Melina corria com o carro. Chovia. Lucinda olhou desesperada para o velocímetro, 100 km/h, a sensação de que estavam correndo de algum perigo assolou o seu estômago.
“- Diminui Melina! – Gritou por cima do ronco potente do motor da Mercedes. Melina olhou para ela com uma expressão estranha de pressa e terror, depois olhou o retrovisor e sacudiu a cabeça em negação e pisou mais fundo no acelerador. – Diminui a velocidade, Mel! Agora!
– Você não vê Lincy? – ela perguntara quase aos gritos com uma voz que beirava o choro. – Ele está atrás de nós, ele quer… – Ela deixou a voz se perder embargada pelas lágrimas de medo que teimavam em querer escorrer por seu rosto, e pisou mais forte no acelerador. Foi então que Luce sentiu a necessidade de olhar para trás e viu uma moto, uma moto potente e veloz vindo atrás do carro delas com os faróis acesos. O motociclista se vestia completamente de preto, com o capacete negro de viseira fumê, a moto era uma Harley Davidson, isso Luce conseguiu saber deduzir, e depois disso a menina só não conseguiu deduzir por que Melina estava fugindo dele. Ela pisou ainda mais no acelerador, o velocímetro subia á 110, 120, 130 Km/h e a chuva começou a bater mais forte no corpo do carro, um raio chegou a visão de Luce e caiu em uma árvore próxima a uma das curvas mais perigosas do conjunto e fez com que Melina perdesse o controle do carro capotando barranco abaixo. Luce sentiu a chuva em seu rosto, mesmo sabendo que ainda estava dentro do que restara do carro. Luce sentia dor, e havia sangue, muito sangue, embaçava a sua visão junto com a chuva. Mesmo assim ela conseguiu ver o menino se aproximar do corpo da irmã e golpear com uma adaga de lâmina curva o peito da garota. E a partir dai Luce só se lembra da dor, do sangue e de um brilho branco que tomara conta de sua visão, depois nada, só o negro denso”.

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